Esta sexta-feira, passou por Curitiba um velhinho dos mais respeitáveis. Aos 82 anos, o francês Charles Aznavour tem apresentado no Brasil sua turnê de despedida; e, assim como tem feito o Gustavo Kuerten, a cada semana se despede de um lugar diferente. É uma pena, tanto pro tênis como pra a música, perder a atividade de profissionais tão talentosos; mas, como sempre acontece no encerramento de uma carreira brilhante, as lembranças boas hão de ser mais fundas que o pesar causado pelo fim dela.
Entre as formalidades da ocasião teve uma entrevista que saiu na Gazeta do Povo, e que eu transcrevo aqui pelo que há nela de extraordinário. Questionado sobre a sua reação ao ser eleito pela revista Times como o artista do século, o Aznavour respondeu, entre outras coisas:
É preciso viver com base no que se sabe fazer e no que se pode fazer a mais. (…) Sou um operário. Não sou um intelectual. Sou um artesão e vou permanecer assim por toda a vida. Não me tornei nobre porque sou conhecido, nem me tornei intelectual por conta do sucesso. Eu me tornei o que deveria me tornar. Os artistas que deixam o sucesso subir à cabeça me dão pena. Porque um dia isso cai. E a queda é ainda pior.
A nota de autocrítica desse pequeno trecho da entrevista já seria o bastante pra considerar esse octagenário um verdadeiro sábio. Notem: o autor dessa resposta não é senão o mesmo autor de obras-primas da canção moderna, como La Bohème ou Hier Encore, que ao meu ver colocam a chanson française como uma das principais canções do século XX, talvez rivalizada só pela MPB e pelo jazz.
O que salta à vista, no entanto, é como soa diferente o discurso do Aznavour daquele visto em geral sair da boca dos artistas da MPB, e que é devidamente alimentado pela imprensa tradicional. No Brasil, qualquer sambista que tenha freqüentado a universidade é considerado intelectual. Ou, melhor: nem precisa ser sambista; só a barba do Raul Seixas arranca do público elogios mais calorosos do que o Grande Sertão tem conquistado pro Guimarães Rosa em décadas, e o Renato Russo e o Cazuza são muito mais cabeças do que o Manuel Bandeira e o João Cabral de Melo Neto juntos.
Reparem, por exemplo, como 1966, ano do lançamento do primeiro LP do Chico Buarque de Holanda, muito criativamente batizado de Chico Buarque de Holanda vol. 1 - onde já constam clássicos prematuros como “Sonho de um Carnaval”, “Pedro Pedreiro” e “A Banda” -, é o mesmo ano do lançamento do surpreendente livro A Educação pela Pedra, onde a poesia brasileira atingia um nível de densidade jamais alcançado antes, e que só veio a ser igualado pelo próprio João Cabral de Melo Neto nos livros seguintes.
Eu não tou disposto a cometer o absurdo de negar o talento do Chico Buaque, nem muito menos a relevância das suas canções. Na verdade, só cito o nome dele por ele ser o único, talvez, a não subir pelas paredes afirmando que a MPB é o futuro da música mundial. A maioria dos brasileiros, mesmo, vão além, a ponto de afirmar a superioridade da música nacional através da inferioridade da estrangeira, o que não costuma ser um meio muito civilizado. Não é raro encontrar depoimentos do Dori Caymmi dizendo que os americanos são uns bobões ou do Edu Lobo afirmando, com a maior convicção do mundo, que a canção francesa parou na cantiga de amigo medieval.
Não sei quanto ao leitor, mas eu percebo alguma diferença entre o Aznavour e o D. Dinis, sem contar que a confiança do Edu Lobo às vezes ultrapassa os limites que a música dele endossariam. Desses nomes todos da MPB - e embora no Orkut tenha cinco comunidades pra afirmar que o Chico Buarque é um gênio - o mais digno do título de intelectual é certamente o Vinícius de Moraes, não só pela erudição e técnica demonstradas na prática, mas principalmente pela transgressão cometida ao pôr aquela técnica e erudição a serviço desse gênero até então estigmatizado que era a canção. É um ato simbólico, exterior à poesia propriamente dita, que revela a maturidade do artista.
Mas esta crônica não está aqui pra sustentar a superioridade ou a necessidade de ser intelectual; justamente pelo contrário. É notável na fala do Aznavour o fato d’ele se definir como artesão, em oposição ao artista intelectual. Essa é uma questão das mais relevantes na atualidade. Muitos artistas que pretendem ser originais acham que, como requisito, precisam também ser intelectuais, o que seria quase sinônimo de originalidade. Quando se analisa a história da arte, no entanto, vê-se como na verdade um grande número de gênios - como um Shakespeare, um Beethoven ou um Picasso - se enquadram com muito mais razão na classe dos artesãos do que na dos intelectuais, os quais são absoluta minoria. E, aqui também, os compositores ditos populares podem ser tão intelectuais como quiserem, que nesse caminho dificilmente vão atingir o vulto do artesão-mor, Heitor Villa-Lobos.
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Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de conhecer um novo poeta, quanto mais uma poetisa. Neste caso particular, a poeta não é nova, mas a descoberta é recente; e, ainda que não fosse, as circunstâncias explicavam a menção.
Se você tá se perguntado sobre a origem do título exdrúxulo desta crônica, cogitando na possibilidade de eu estar louco ou de se tratar de um verso, eu não nego nem uma nem outra, mas trancrevo a passagem no seu contexto de origem, que é outra entrevista. O entrevistador pergunta: “- Leila, como é que foi essa situação, aquele momento crítico na qual (sic) você passou?” - Ao que Leila Lopes, de improviso, recita este monólogo absolutamente genial:
É a sensação de rodar, rodar, rodar, sem saber exatamente pra onde estava indo… ou como se já estivesse no Céu. Porque acredito totalmente que é pra lá que eu vou quando isso for decidido… quando for o momento. E eu não sabia o que estava acontecendo, porque eu não sabia como começou acontecer. Uma tarde de domingo, linda, maravilhosa. Um sol belo, azul: 17 horas.
Em que pese a prosa por que é vazada a poesia, esta jamais se desnatura pelo meio da expressão, e Leila Lopes é uma poetisa extraordinária, não há dúvida: “um sol belo, azul”. Essa pérola, clímax embora do trecho citado, não é mais do que o início de um monólogo que o leitor pode encontrar no post “Leila Lopes, drogada e prostituída?????”, minha indicação de hoje. A única observação que eu sou obrigado a fazer é que, se confirmada a notícia publicada naquele blogue, Leila Lopes pode se tornar a primeira poetisa a mostrar, digamos, seu eu-lírico despido na frente das câmeras… Pelo menos, acho que é a primeira; se o leitor souber de outro caso, pode se sentir livre pra citar ele nos comentários.