Advertência!

Posted in História da Semana on May 31, 2008 by Dom Violeto

Dom violeto mudou de endereço. A maior parte dos textos desse blogue, exceto os poemas, foram também transferidos pra lá. Portanto, se você procurava alguma atualização ou se interessou pelo autor e quer conhecer mais, o novo endereço é: http://bagatelas.web44.net/

Cronicazinha lazarenta

Posted in História da Semana with tags , , , , on May 25, 2008 by Dom Violeto

Depois do almoço, às três da tarde o cronista foi dormir. Mais de vinte horas acordado, o corpo pedia descanso: despertador marcado pras onze da noite; e, se precisasse, pras onze e cinqüenta e nove. Cansado. Ia dormir até o outro dia, certeza. Às nove da noite, o cronista acorda. Estranho. Nove horas mesmo, e nenhum sono. Será que era outro dia já? Não; sábado ainda. O cronista levanta, com fome, abre a porta do quarto, acende a luz da sala, pensa. Melhor voltar a dormir; daqui a pouco bate o sono de novo, e aí nem dorme nem nada, porque já foi. O cronista volta pro quarto e deita na cama, agora com a luz da sala se rebatendo de leve nas paredes e no violão, em pé no meio do quarto. Bonito o violão à meia-luz, as cordas cintilando um brilho cinzento contra o braço sombreado e opaco. Muito bonito mesmo, queném um rosto de mulher na sombra, os cabelos reluzindo no relevo de uma luz tênue, um sorriso que se adivinha na penumbra. O violão sorria, e o cronista pegou no braço do violão como se pega no braço da companheira. Instintivamente, a velha melodia da “Valsa sem nome”. O cronista já tocou a “Valsa sem nome” umas centenas de vezes, talvez milhares; qualquer hora enjoa, mas ainda não. Daí ao repertório de meia dúzia de canções, sempre as mesmas, e no fim o cronista inventa improvisos na “Lótus” pra disfarçar a falta de técnica. Cansado. Nenhum sono. Melhor fazer um café e levantar de uma vez, comer um pão. Péssimo o café do cronista, péssimo o pão comprado durante o dia. Melhor comer o bolo de cenoura de anteontem, a cobertura de chocolate. De anteontem, mas bom. Faz o café, bebe café com leite e bolo. Tem que escrever a crônica pro blogue. As duas últimas sairam na segunda já, e isso não é bom; a crônica é pra escrver domingo. Domingo… Já é domingo. Sobre o quê? A semana foi parada, monótona. Só o texto sobre a Marcha da Maconha, que o cronista tava lendo ontem, e a discussão entre o Lear e a Goneril:

Hear, nature, hear, dear goddess, hear!

Suspend thy purpose if thou didst intend

To make this creature fruitful…

 

Mas o Lear não é tema de crônica. A maconha era um tema bom; o cronista não gosta de maconha, assim como não gosta de panetone ou bacalhau, mas é a favor do direito de fumar com dignidade e fazer passeatas. Será que é hoje o Grande Prêmio de Mônaco? O cronista não pode perder o Grande Prêmio de Mônaco; esse ano tá com cara de que vai dar Massa. Mas a Marcha da Maconha é notícia velha, e notícia velha é queném pão velho: melhor o bolo de cenoura. É verdade que ontem o cronista tinha lido um lead interessante dizendo que o presidente ou algo assim da Jamaica não queria gays no seu governo. É uma notícia cara ao cronista, e de bom grado  ele se daria ao prazer de escrachar o jamaicano se já não tivesse acabado de escrever essa cronicazinha lazarenta. Barbaridade! Melhor ligar no Waldo e pedir um X-bacon… 

Seria Deus um extraterrestre?

Posted in História da Semana with tags , , , , , on May 19, 2008 by Dom Violeto

Eu não queria parecer comentarista de um blogue só, mas assim não dá pra resistir; é que saiu no Hermenauta semana passada mais uma dessas notícias que fazem a vida desse blogue aqui, abjeto e parasita por opção. Na verdade, como o Hermê não é repórter, a notícia não é dele, e sim do Guardian; mas ficam aqui a observação e o linque, pra quem não tiver disposto a ler a matéria em inglês. Esta, de qualquer forma, anuncia a publicação de toda a papelada do Ministério da Defesa britânico referente a contatos imediatos, ou nem tanto, com homenzinhos verdes. Marcianos sim senhor, meu amigo.

Os arquivos vão ser publicados completamente ao longo dos próximos três ou quatro anos; e, pela extensão dos documentos (um dos arquivos acabados de sair, que vão ser 160 no final das contas, tem mais de 450 páginas), devem demorar mais algumas décadas pra ser devidamente esquadrinhados.

Até aí, tirando os marcianos, nada de extraordinário; e, se fosse só isso, eu tinha ido procurar outro assunto pra escrever sobre. Mas eis que outro dia, abrindo a primeira página do Free Dictionary, que eu acesso diariamente, dou com a seguinte notícia: “Vatican scientist says belief in God and aliens is OK”. Essa notícia, naturalmente, também não é do dicionário nem é de primeira mão, como nada hoje em dia é de primeira mão no mundo. O texto relata, no entanto, uma entrevista que o jesuíta argentino Gabriel Funes, astrônomo-chefe do Vaticano, deu pro L’Osservatore Romano, o qual, segundo consta, é um jornal daquele país mesmo. O título da entrevista: “The extraterrestrial is my brother”.

 Já teve época em que, se alguém dissesse isso, era queimado vivo. Se fosse, como esse clérigo da notícia, acessor particular da Sua Santidade o Papa Bento 16, então nem precisava riscar fósforo com o  demente, que já devia tar louco e varrido pelas tabelas. Mas aí já viu; a roda viva vem, carrega o destino pra lá, e o Papa tem que se retratar pelos erros do passado, que aliás nunca são dele, mas dos seus antecessores.

Eu, pessoalmente, sempre desconfiei daqueles velhinhos: não é possível que eles se isolem num país mais fechado que a China, recusem os prazeres da carne e se abstenham de todos os sabores mundanos da existência só porque acreditam em Deus. Algum segredo eles guardam, e agora parece que a hora é chegada: é lógico que os papéis britânicos a respeito dos homenzinhos verdes não contêm toda a verdade dos fatos, mas é um indício de que os poderosos tão preparando o nosso psicológico. Eles não iam chegar e, de cara, dizer: - Meus filhos, Deus é um E.T. Mas ouçam o que eu tou falando: daqui a alguns anos vão entrevistar o astrônomo do Vaticano de novo, e aí o título já vai ser esse: “The extraterrestrial is my father”.

Soneto nº 3

Posted in Sonetos with tags , , , , , , , on May 14, 2008 by Dom Violeto
Quero-te crua, feito um mal do mundo,
Que me corroa e me divida em dois;
Quero perder-te, e me perder depois
Num só furor, num louco amor, profundo...

Perca-me o siso a tua carne vil.
Faça-me pó tua languidez bandida.
Depois me queima, e me dá cabo à vida
Até minha alma se encolher de frio.

Chama-me nomes sujos como a lama;
E, o peito arfando, já qual flor desfeita,
Me perdoa e caçoa, e então serena.

E, no silêncio que o luar derrama,
Esquece a noite que lá fora espreita
E diz que a vida já não vale a pena.

O criador e a criatura

Posted in História da Semana with tags , , , , , , , , , , , , , , , on May 12, 2008 by Dom Violeto

Minha mãe sempre me recomendou não andar em más companhias, e o tempo se encarregou de provar o fundamento da advertência. O que são ou deixam de ser os maus, realmente, não é matéria que se defina com precisão nem muito menos com proveito, e nisso não peço a ajuda dos céticos nem dos cretinos, pois eu mesmo, dependendo do humor e do dia, me considero um destes. Aliás, dependendo também do humor, tem dias em que eu mesmo me julgo mau, como no entanto tem dias em que eu me considero um anjo ou o próprio Deus, o que só vem a dar maior peso à duvida quanto ao julgamento dos outros. Tudo isso, porém, não descarta o cerne do raciocínio materno ao ocultar do filho certos aspectos da realidade: a companhia, seja ela qual for, influencia inevitavelmente tanto o comportamento do acompanhante como o do acompanhado, os quais na maioria das vezes não são muito fáceis de distinguir.

 Com o passo dos anos, que tende a adquirir ímpetos de velocista na adolescência, os conselhos maternos não raro perdem muito do valor e da atenção, quando não da estima. E pudera: depois de mais de uma década de serviço, já fizeram o tinham que fazer, felizmente. Felizmente, sim senhor, meu amigo; não venha me desmentir no que digo, pois é aqui que eu queria chegar. O que seria de nós, meros mortais, sem o sábio direcionamento dos que viveram pra ensinar, e agora ensinam a viver? É muito fácil questionar os conselhos de quem está aí pra proteger quando já se foi protegido a ponto de criticar.

Pois não são todas as criaturas que têm esse privilégio. Vejam um exemplo esclarecedor. A minha mãe mesmo, que tem o hábito de ser precisa nos seus apontamentos, ia além de apontar os bois: chamava eles pelo nome. De modo que, sempre quando eu saía de casa - e ainda hoje, quando eu saio - um dos seus conselhos era:

— Violeto, toma cuidado com os carros, hem; eles andam muito perigosos ultimamente…

 Realmente, não há o que contestar; os carros são seres terrivelmente cruéis e abomináveis, o que se prova facilmente com o número de atropelamentos na ruas da vida. Na escola, diga-se de passagem, em vez de de ensinarem a se ter medo de ladrão ou de matemática, os professores deviam ensinar as nossas pobres criancinhas a ter medo é dos carros, esses bichos mais traiçoeiros que a onça pintada e o SUS somados e multiplicados por cento e cinqüenta. Mas vai; até entre os carros, brutos por natureza e determinação celeste, o homem fez prevalecer o seu engenho. Domesticados, enfim.

E tem que se fazer justiça aos fatos, não culpando o todo pelas atrocidades de meia dúzia: a grande maioria dos carros, hoje, já se comporta de maneira muito humilde e fiel, como se a própria natureza se tivesse encarregado de limpar a mácula congênita. Mas então eu repito: não são todas as criaturas que têm o privilégio dos conselhos maternos, e os carros - pobres carros cruéis! - não têm mãe. Será que alguém já parou pra pensar nas sinistras implicações dessa lacuna na educação sentimental de um carro, seja ele um Corvette ou um Gol? Os homens dispõem, se não de uma mãe, pelo menos um professor ou um delegado pra lhes dar uns tapas e dizer o que é certo e o que é errado quando ainda não desemvolveram os valores de gente séria e trabalhadora. Agora, e os carros? Os pobrezinhos saem da linha de montagem direto pra a vitrine, e dali pra a casa de um desconhecido a que têm a obrigação de servir como a um senhor onipotente.

É nesse contexto que eu queria comentar uma notícia que o Hermenauta publicou no blogue dele, e que tinha saído na Folha de São Paulo:

Mulher morre atropelada pelo próprio carro no interior de SP

Uma dona de casa de 49 anos morreu no final da tarde de sexta-feira ao ficar presa debaixo de seu próprio carro, na garagem de casa em São José dos Campos (97 km de São Paulo).

De acordo com a Polícia Civil, testemunhas disseram que a mulher tirou seu carro - um Gol cinza - da garagem de casa para que a filha pudesse tirar o carro que estava atrás. Segundo os relatos, depois da saída da filha, a mulher estacionou o Gol na garagem novamente e foi fechar o portão. Naquele momento, o carro se soltou e a atingiu.

[...]

O caso foi registrado pela Polícia Civil como caso suspeito e será investigado.”

Tomara Deus que o réu não sofra pela parcialidade da justiça humana e que a a investigação leve em conta a possibilidade desse aparente homicício terrível por parte do Gol consistir apenas num caso de legítima defesa ou, na pior das hipóteses, vingança de violências praticadas por mãe e filha na clausura doméstica. No mais, será esse caso a prova da natureza vil e atroz dos carros ou o resultado da convivência com um ambiente corrupto? - Muito mais instigante que o caso Nardoni.

 

***

 

Num dos seus longos poemas da década de 40, o Carlos Drummond de Andrade narra como na interação social costumava se fantasiar de elefante, a qual não se provava no fim uma fantasia muito eficiente, por motivos facilmente perceptíveis:

Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
 

Talvez o poeta fosse mais feliz se seguisse a sugestão do Doda, e se fantasiasse de galinha.

 

Sentir as coisas

Posted in Redondilhas with tags , , , , on May 6, 2008 by Dom Violeto
Sentir as coisas por fora
Não é fingir que se sente;
É vê-las pelos dois lados
E senti-las duplamente.
 
(E, mesmo quando se finge,
- De fingir o tempo todo -
A gente como que aprende
A senti-las de outro modo:
 
Um modo mais que de dentro,
Pois não há dentro nem fora;
Há só, no fundo do peito,
Uma janela que estoura.)

Astronauta versus vacina de água

Posted in História da Semana with tags , , , , , , , , , , , , , on May 4, 2008 by Dom Violeto

Você achou ela burra, leitor meu? Estúpida? ridícula? a criatura mais vil e mesquinha que Deus já teve o topete de pôr sob a pele de uma mulher, ainda que muito gostosa? Pois então, permita-me dizer, é que o senhor ainda não ficou sabendo da nova ferramenta lançada na luta contra a febre amarela, a magnífica vacina de água. O município responsável pela invenção, me diz a Gazeta do Povo, é a ilustre Iretama, que o jornal também me diz ficar no Centro-Oeste do estado. Se não me dissesse, realmente, eu não saberia, como é provável que ninguém soubesse além dos moradores daquela cidade.

Note-se, porém, que não é uma vacina de água comum, senão de água destilada. Essa adição no nome decerto deve ter implicações sensacionais, as quais a velha professora Luthegard, personificação moderna do mítico alquimista, explicaria com um olhar muito profundo e misterioso. Mas, como a Luth, e mesmo o sábio Borsato, fabricante dos sucos Saci e professor de química nas horas vagas, já vão muito longe no tempo-espaço, eu creio em tudo que me oferecem, e acredito nos médicos assim como acreditaria nos poetas, se fosse médico.

 Quem não aceitou a mudança, no entanto, foi a população de Iretama, como é natural acontecer em comunidades mais conservadoras. Foi só um bando de 150 dosocupados ficarem sabendo que tinham sido vacinados com água que já se botaram a espernear, gritar, e foram logo se queixar pro diabo que os carregue. A administração - Valderez Aparecida Capelini Bathus, diretora da 11.ª Regional de Saúde de Campo Mourão-, naturalmente modesta da invenção, diz que não sabe o que aconteceu, que as chances d’isso ter acontecido são mínimas, etc. Ora, um enfermeiro não identificado, ser mais suscetível às tentações da vaidade, andou botando pra fora as verdades sobre essa ação revolucionária:

No primeiro dia foi tranqüilo: recebemos a ampola com a água destilada e o frasco com o medicamento para misturar, dissolver e aplicar no paciente. [...] No segundo dia da campanha [de vacinação] chegou apenas a água destilada.

Aí aconteceu o inevitável, como de praxe: o enfermeiro n.º 1 olhou pro n.º 2, o n.º 2 olhou pro n.º 3, o n.º 3 olhou pra a parede, e a parede disse: - Dá nada não; vai assim mesmo, que ninguém vai ficar sabendo. - E foi assim que, como costuma ser nas grandes descobertas, a parede motivou uma grande invenção, que em breve deve ser empregada na prevenção de outras enfermidades. Aliás, fontes muito bem informadas relatam que o Rio de Janeiro já demonstrou interesse em aplicar a nova tecnologia no combate contra a dengue.

 

 

Não bastasse a criação desses tormentos aludidos acima, a maior insolência de todas as má-criações divinas foi criar o tempo, que no fim das contas é a causa de todas as aflições humanas nesse vale de lágrimas. O mal maior não é simplesmente ver os desconcertos que se vão pela vida afora, e sim vê-los continuar no mesmo caminho torto em que vieram. Basta ler os jornais e ver como os padres continuam doidos, como ainda tem gente que paga pra ver a Cláudia Leite cantando, como ainda tem pais que tacam a filha da janela do apartamento, e como alguns deles ainda estupram a filha no porão de casa. 

Tudo isso seria uma desgraça completa e acabada, se não fosse a esperança de descobrir pelo meio dos escombros alguma manifestação de vida. Pra que não me acusem de pessimista ou apocalíptico, portanto, eu anuncio hoje a minha primeira descoberta interessante, em meses, nisso que chamam de blogosfera. O fato é que, depois de um mês de quase completa perda de tempo no meio das inutilidades do WordPress, eu encontrei enfim o primeiro indício de vida no meio do caos, o Lusosfera. Preto no branco: a lusosfera é o conjunto de blogues tendo a língua portuguesa como meio de expressão, daí que o referido Lusosfera é um blogue sobre esses blogues todos.

É uma tarefa e tanto, mas a responsável pelo blogue - se eu não lembro mal, o nome dela é Paula Góes - tem feito um trabalho interessante, o que sem dúvida é resultado da competência da mesma, que regularmente também traduz textos do inglês pro português, e vice-versa, sendo que muito disso pode ser acessado naquele blogue ou na série de linques que se encontra ali. E eu escrevo isso aqui, pela minha vez, em virtude da total convicção de que, assim como o jornalismo impresso foi responsável por uma profunda renovação no gosto do leitor e no estilo da escrita, esses blogues que hoje engatinham vão certamente ser o diapasão do gosto literário nas próximas gerações, em que pese o conformismo de alguns eruditos mais caturras.

Soneto nº 5

Posted in Sonetos with tags , , , , , on April 29, 2008 by Dom Violeto
A bola rola, e junto as pernas, cegas,
Se embaralham no campo... Num momento,
Tudo que é vivo ou morto o entendimento
Confunde... Desde o olhar que tu me negas...

(Inconfundivelmente belo e fútil,
O horizonte é o tempo.) ...Desde as cores
De um vestido qualquer, até os sabores
De bocas esquecidas... Tudo é dúctil,

Então, ao pensamento. Tão-somente
Uma cinza de vida que persiste
Em se manter acesa, qual farol

Que iluminasse a vida de repente,
Na confusão das vozes põe-se em riste
E, junto da torcida, grita: - Gol!

Um sol belo, azul: 17 horas

Posted in História da Semana with tags , , , , , , , , , , , , , , , on April 27, 2008 by Dom Violeto

Esta sexta-feira, passou por Curitiba um velhinho dos mais respeitáveis. Aos 82 anos, o francês Charles Aznavour tem apresentado no Brasil sua turnê de despedida; e, assim como tem feito o Gustavo Kuerten, a cada semana se despede de um lugar diferente. É uma pena, tanto pro tênis como pra a música, perder a atividade de profissionais tão talentosos; mas, como sempre acontece no encerramento de uma carreira brilhante, as lembranças boas hão de ser mais fundas que o pesar causado pelo fim dela.

Entre as formalidades da ocasião teve uma entrevista que saiu na Gazeta do Povo, e que eu transcrevo aqui pelo que há nela de extraordinário. Questionado sobre a sua reação ao ser eleito pela revista Times como o artista do século, o Aznavour respondeu, entre outras coisas:

É preciso viver com base no que se sabe fazer e no que se pode fazer a mais. (…) Sou um operário. Não sou um intelectual. Sou um artesão e vou permanecer assim por toda a vida. Não me tornei nobre porque sou conhecido, nem me tornei intelectual por conta do sucesso. Eu me tornei o que deveria me tornar. Os artistas que deixam o sucesso subir à cabeça me dão pena. Porque um dia isso cai. E a queda é ainda pior.

 A nota de autocrítica desse pequeno trecho da entrevista já seria o bastante pra considerar esse octagenário um verdadeiro sábio. Notem: o autor dessa resposta não é senão o mesmo autor de obras-primas da canção moderna, como La Bohème ou Hier Encore, que ao meu ver colocam a chanson française como uma das principais canções do século XX, talvez rivalizada só pela MPB e pelo jazz.

O que salta à vista, no entanto, é como soa diferente o discurso do Aznavour daquele visto em geral sair da boca dos artistas da MPB, e que é devidamente alimentado pela imprensa tradicional. No Brasil, qualquer sambista que tenha freqüentado a universidade é considerado intelectual. Ou, melhor: nem precisa ser sambista; só a barba do Raul Seixas arranca do público elogios mais calorosos do que o Grande Sertão tem conquistado pro Guimarães Rosa em décadas, e o Renato Russo e o Cazuza são muito mais cabeças do que o Manuel Bandeira e o João Cabral de Melo Neto juntos.

Reparem, por exemplo, como 1966,  ano do lançamento do primeiro LP do Chico Buarque de Holanda, muito criativamente batizado de Chico Buarque de Holanda vol. 1 - onde já constam clássicos prematuros como “Sonho de um Carnaval”, “Pedro Pedreiro” e “A Banda” -, é o mesmo ano do lançamento do surpreendente livro A Educação pela Pedra, onde a poesia brasileira atingia um nível de densidade jamais alcançado antes, e que só veio a ser igualado pelo próprio João Cabral de Melo Neto nos livros seguintes.

Eu não tou disposto a cometer o absurdo de negar o talento do Chico Buaque, nem muito menos a relevância das suas canções. Na verdade, só cito o nome dele por ele ser o único, talvez, a não subir pelas paredes afirmando que a MPB é o futuro da música mundial. A maioria dos brasileiros, mesmo, vão além, a ponto de afirmar a superioridade da música nacional através da inferioridade da estrangeira, o que não costuma ser um meio muito civilizado. Não é raro encontrar depoimentos do Dori Caymmi dizendo que os americanos são uns bobões ou do Edu Lobo afirmando, com a maior convicção do mundo, que a canção francesa parou na cantiga de amigo medieval.

Não sei quanto ao leitor, mas eu percebo alguma diferença entre o Aznavour e o D. Dinis, sem contar que a confiança do Edu Lobo às vezes ultrapassa os limites que a música dele endossariam. Desses nomes todos da MPB - e embora no Orkut tenha cinco comunidades pra afirmar que o Chico Buarque é um gênio - o mais digno do título de intelectual é certamente o Vinícius de Moraes, não só pela erudição e técnica demonstradas na prática, mas principalmente pela transgressão cometida ao pôr aquela técnica e erudição a serviço desse gênero até então estigmatizado que era a canção. É um ato simbólico, exterior à poesia propriamente dita, que revela a maturidade do artista.

Mas esta crônica não está aqui pra sustentar a superioridade ou a necessidade de ser intelectual; justamente pelo contrário. É notável na fala do Aznavour o fato d’ele se definir como artesão, em oposição ao artista intelectual. Essa é uma questão das mais relevantes na atualidade. Muitos artistas que pretendem ser originais acham que, como requisito, precisam também ser intelectuais, o que seria quase sinônimo de originalidade. Quando se analisa a história da arte, no entanto, vê-se como na verdade um grande número de gênios - como um Shakespeare, um Beethoven ou um Picasso - se enquadram com muito mais razão na classe dos artesãos do que na dos intelectuais, os quais são absoluta minoria. E, aqui também, os compositores ditos populares podem ser tão intelectuais como quiserem, que nesse caminho dificilmente vão atingir o vulto do artesão-mor, Heitor Villa-Lobos.

 

***

 

Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de conhecer um novo poeta, quanto mais uma poetisa. Neste caso particular, a poeta não é nova, mas a descoberta é recente; e, ainda que não fosse, as circunstâncias explicavam a menção.

Se você tá se perguntado sobre a origem do título exdrúxulo desta crônica, cogitando na possibilidade de eu estar louco ou de se tratar de um verso, eu não nego nem uma nem outra, mas trancrevo a passagem no seu contexto de origem, que é outra entrevista. O entrevistador pergunta: “- Leila, como é que foi essa situação, aquele momento crítico na qual (sic) você passou?” - Ao que Leila Lopes, de improviso, recita este monólogo absolutamente genial:

É a sensação de rodar, rodar, rodar, sem saber exatamente pra onde estava indo… ou como se já estivesse no Céu. Porque acredito totalmente que é pra lá que eu vou quando isso for decidido… quando for o momento. E eu não sabia o que estava acontecendo, porque eu não sabia como começou acontecer. Uma tarde de domingo, linda, maravilhosa. Um sol belo, azul: 17 horas.

Em que pese a prosa por que é vazada a poesia, esta jamais se desnatura pelo meio da expressão, e Leila Lopes é uma poetisa extraordinária, não há dúvida: “um sol belo, azul”. Essa pérola, clímax embora do trecho citado, não é mais do que o início de um monólogo que o leitor pode encontrar no post Leila Lopes, drogada e prostituída?????”, minha indicação de hoje. A única observação que eu sou obrigado a fazer é que, se confirmada a notícia publicada naquele blogue, Leila Lopes pode se tornar a primeira poetisa a mostrar, digamos, seu eu-lírico despido na frente das câmeras… Pelo menos, acho que é a primeira; se o leitor souber de outro caso, pode se sentir livre pra citar ele nos comentários.

Picolé de sagu, doce lembrança

Posted in História da Semana with tags , , , , , , , , , , , , , on April 20, 2008 by Dom Violeto

O passado, literalmente, é doce, sobretudo quando se passou em Cornélio Procópio. É verdade que eu não trocaria o que eu vivo pelo que vivi, nem daria o que vou ter pelo que tenho, mas o passado sempre traz um sofrimento inerente à lembrança do inalcançável. Muito se poderia ter feito e não se fez, muito se poderia ter experimentado e não se experimentou, muito se poderia ter gozado e não se gozou; porém, o que se fez é já uma recompensa, uma paga mesmo dos sonhos não realizados. Que pena, meu Deus, das crianças de hoje! Quantos meninos, hoje, nunca saberão o que era escalar os galhos dum pé de manga e ver o mundo do alto de uma árvore, que não é o mesmo que ver o mundo da janela de um prédio; quantos, hoje, nunca saberão o que era brincar de esconde-esconde na rua até tarde da noite, quando aparecia o guardinha de bicicleta, pra dizer que não eram horas de criança tar na rua; e quantos, enfim, nunca saberão como era brincar de carrinho de flexão com uma dúzia de outros aprendizes de gente, e riscar uma cidade imaginária no chão mesmo da calçada com um pedaço de pedra… Me desculpem essa enumeração tediosa, que não vem ao caso. É que o passado é muito grande pra caber numa só frase e a emoção transborda, inevitavelmente, pra álém dos limites da sentença. De qualquer forma, venhamos ao caso, e ele é que o passado, além de grande, foi literalmente doce, sobretudo em Cornélio.

Eu concordo que em outras cidades do mundo as crianças tenham-se entregado tão ou mais prodigamente aos prazeres de certas guloseimas comuns. De fato, muito da obesidade que atualmente afeta a população mundial, frequentemente atribuída ao McDonald’s, deve ter suas raízes nos chicletes que as crianças engoliram na infância e não foram devidamente evacuados. Eu, pessoalmente, me lembro das declarações do velho Tio Rubens, diretor da Escola Carlos Dietz de Londrina, que já há muito tempo ia além, sustentando que as crianças da nova geração não só tavam cada vez mais gordas, como também cada vez mais baixas em decorrência da sua péssima alimentação, baseada principalmente nas variedades Ping Pong e Bubaloo. Se era péssima não é problema meu, que não sou gordo nem anão. O que eu quero dizer  é que nenhum desses prazeres de massa se aproximam do refinamento de uma iguaria hoje esquecida pela geração mais nova, o picolé de sagu.

Em Curitiba acho que não existem mais sorveteiros ambulantes, dadas as dimensões da cidade e a proliferação de condomínios; em Londrina, ainda existem alguns pobres solitários, embora em geral estes simplesmente estaquem nalgum ponto de maior movimento, como a porta da Biblioeca Central da UEL ou a entrada de qualquer colégio. Em Cornélio, porém, dependendo da posição da porta da casa em relação à rua, o sujeito pode chamar o sorveteiro do próprio sofá da sala. É só ficar atento à melodia característica da gaita, e gritar quando o velhinho corcunda passar com o passo lento de sempre. Em alguns casos, quando o velhinho, além de corcunda, já tiver ficando surdo, é preciso sair lá no portão e gritar: Ô sorveteiro! E, até ele chegar na porta, ainda dá tempo de voltar lá dentro e catar umas moedas pro sorvete. Em geral, as variedades são as mesmas nas diferentes cidades: o picolé de fruta, o de leite (dez centavos mais caro que o de fruta), e uns tipos esquisitos pra gente esquisita, como a massa e o picolé de russo, em forma de cilindro. Uma coisa, entretanto, fui descobrir em Londrina que era puro capricho procopense e de algumas cidades do interior: o referido picolé de sagu. E que decepção; justo o meu sorvete favorito! Sempre que volto pra minha cidade natal, portanto, uma das primeiras coisas que eu faço é esperar o sorveteiro passar, pra matar a saudade.

Vejam vocês assim que, embora seja reprimida com a angústia dos exilados longe dos prazeres domésticos, essa saudade é um sentimento latente, que tende a se manifestar nos momentos de fraqueza. E ontem, confesso, me ocorreu um momento desses. Mas a situação exige um esclarecimento preliminar. O fato é que eu, como indivíduo pouco disposto a ostentações diretas a respeito da minha pessoa, não sou dos mais inclinados a participar de saites de relacionamento como o Orkut. Eu realmente tive nesse saite, durante algum tempo, não só um perfil, mas vários, entre eles um com o nome de Dom Violeto. Certo dia acordei com ímpetos assassinos e matei todos eles. Há duas semanas, porém, quando criei este blogue, resolvi que seria útil reassumir a identidade e o perfil do Dom Violeto pra fins de auto-promoção, e foi aí que Dom Violeto voltou  pro Orkut. Ora, ontem, vejam vocês, lá estava eu a planejar uma forma de dar uma aparência cool ao referido perfil, quando me veio à mente o passado e suas carícias de afeto e angústia. O picolé de sagu! O perfil do Dom Violeto definitivamente seria muito cool se eu entrasse numa comunidade sobre o picolé de sagu. Talvez até uma moça bonita, quem sabe apreciadora das artes ou da fina ironia, ao se deparar com a comunidade sobre o picolé de sagu resolvesse entrar no meu excêntrico blogue. Talvez ela descobrisse numa crônica qualquer a paixão da sua vida e nós tivéssemos um casal de lindos filhinhos, um jogador de futebol e uma violoncelista.

Pensando assim foi que eu digitei picolé de sagu no “pesquisar no orkut”. Nada. Digitei então sorvete de sagu. Vai ver que alguém entenda o picolé simplesmente como sorvete… Nada. Nada. Nada. Poucas vezes na vida fiquei tão decepcionado. Saí do Orkut e digitei picolé de sagu no Google. Nada.

Como pode ser que ninguém nunca tenha escrito nada sobre o picolé de sagu? Esse doce, que é o meu sorvete favorito, e que por força de não ser comum é uma espécie de símbolo das cidades do interior, merece ser reabilitado. Vejam o barreado, por exemplo. Antes de algum desocupado entronar ele como prato típico, ninguém pagaria pra comer essa papa, e com certeza ele teria sido esquecido ou posto de parte como algo indesejável, que é o que anda acontecendo com o picolé de sagu. Não é que eu esteja disposto a manchar o nome do barreado, que já é sujo de nascença, mas todos têm o direito de ser tratatos com igualdade pela justiça divina. Eu, portanto, faço um apelo aos entendidos da culinária: dêem mais atenção a essas receitas que vão se perdendo. Pela propaganda que um bando de doidos fazem por aí, tem gente que come até panetone, aquele insulto ao paladar. É só uma questão de imagem… E vida longa ao picolé de sagu!

 

***

 

Em continuação à série de posts sobre a relevância do WordPress, hoje eu indico mais um. A favelização do Dubai é um tema importante, tenho certeza disso…